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Palavra do Bispo | Homilia - 28/12/2025

Homilia - 28/12/2025

Festa da Sagrada Família

Encerramento do Ano Santo da Esperança

 

Eclo 3,3-7.14-17a [gr. 3,2-6.12-14]; Sl 127; Cl 3,12-21; Mt 2, 13-15.19-23

 

“Chama viva da minha esperança!”

 

Irmãos e irmãs! No dia de hoje, em que a Igreja católica celebra a Festa da Sagrada Família, encontra-se reunida, com a graça de Deus, na Catedral Sant’Ana, a nossa família diocesana de Mogi das Cruzes. Estamos reunidos para o Encerramento do Ano Santo, o Jubileu da Esperança.

 

É significativo também que outras duas motivações se entrelacem: o encerramento do Ano Santo de 2025 anos do nascimento do nosso Salvador e as celebrações do Tempo do Natal, que atualiza o fato histórico em que o mistério da salvação passa pela encarnação do Filho de Deus, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1, 14).

 

E, visto que estamos no final do ano da graça de 2025, pedimos também as bênçãos de Deus para o ano novo que está às portas: 2026. Este Ano Jubilar, conhecido como “Ano Santo da Esperança”, hoje se conclui, no mundo inteiro, em nível diocesano e será concluído, em nível universal, pelo papa Leão XIV, no dia 6 de janeiro (Festa da Epifania).

 

Este “Ano Santo” foi convocado pelo Papa Francisco, quase ao término de seus doze anos de pontificado, que foi um tempo de graça, até que o Senhor chamou para Si durante a oitava pascal (21.04.2025).

 

O Papa Francisco deixou um rico e importante legado. Suas primeiras palavras exprimiram seu sonho de ver “uma Igreja pobre e para os pobres”. E, de modo coerente, marcou seu pontificado com inúmeros encontros com os pobres, moradores de rua, presos, refugiados e tantas situações que ele presenciou mundo afora. Insistiu, como a repetição de um mantra, na prática da virtude da misericórdia, em vista do que convocou o “ano santo extraordinário da misericórdia”, iniciado em dezembro de 2015.

 

Outras mensagens e ensinamentos foram recorrentes em seu magistério: esperança, escuta e diálogo, comunhão, participação e missão (resumidas na palavra sinodalidade), acolhida a todos, cultura do encontro, proteção da criação, dentre tantos discursos, homilias e documentos. Por fim, como apóstolo da esperança, convocou o “Ano Santo da Esperança”, que hoje se conclui.

 

Com a morte do Papa Francisco, ao final do conclave, acolhemos, de todo o coração, o papa Leão XIV, que o Espírito Santo enviou à Igreja, e que, em menos de um ano já nos proporcionou belos e importantes ensinamentos. Em sua intenção, oferecemos também hoje fervorosas preces. Papa Leão tem exortado desde o início e continuamente em favor da Paz, uma paz desarmada e desarmante.

 

Ele exorta a estarmos atentos ao que o Espírito diz a Igreja, na expressão cara ao livro do Apocalipse (cf. Ap 2, 7), de onde ele retirou o título da sua primeira Carta Apostólica Dilexi te, que se traduz com as palavras do Ressuscitado: Eu te amei. Esta carta já começara a ser, anteriormente, esboçada pelo Papa Francisco, e trata da opção pelos pobres, percorrendo um caminho que vai desde o Antigo Testamento até os dias de hoje.

 

Nesta Carta, ao tratar da pobreza, em várias dimensões, o papa Leão recorda que nosso empenho em favor dos pobres é ainda insuficiente (DT 10) e que nós, cristãos, diante das diferentes formas de pobreza, “não podemos baixar a guarda” (DT 12). Assim, motivados pelo “Ano Santo da Esperança”, somos enviados pelo próprio Cristo, que se fez pobre (2Cor 8, 9), a intensificar a nossa solidariedade aos pobres como Peregrinos de esperança; como profetas e testemunhas da esperança.

 

Durante este Ano Santo, o povo de nossa diocese, através de grupos paroquiais, pastorais e movimentos, pôde realizar peregrinações nas diversas igrejas jubilares, presentes em cada um dos dez municípios. Foram momentos de oração e penitência, encontro e reconciliação com Deus e com os irmãos, em que a graça da indulgência foi acolhida e vivenciada.  

 

Tivemos a oportunidade de meditar mais sobre a virtude teologal da Esperança. Tal como a Fé e a Caridade, a Esperança tem a sua origem em Deus. Acolhida em nossos corações e colocada cotidianamente em prática, a Esperança auxilia e fortalece para trilharmos o caminho da santidade, que é a nossa vocação, conforme as palavras de São Paulo, na segunda leitura: vós sois amados por Deus, sois os seus santos eleitos. Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência (Cl 3, 12). São Paulo que já afirmara, em 1Cor 13, que a caridade é a mais perfeita das virtudes, o reafirma, na Carta aos Colossenses: amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição (Cl 3, 14).  

 

Que o caminho da santidade, sedimentado na esperança, é seguro, no-lo confirma o lema deste Ano Santo: “a Esperança não decepciona” (Rm 5, 5) – Spes non confundit (cf. título Bula do Ano Santo). O apóstolo Paulo afirma que a esperança não decepciona, pois o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5, 5). Ou seja, a esperança tem sua fonte em Deus que, em seu infinito amor, nunca decepciona.

 

De Abraão a Maria e José e deles até os nossos dias, não faltaram e não faltam modelos de homens e mulheres que perseveraram na esperança e na confiança em Deus. São Paulo afirma que Abraão "contra toda humana esperança, firmou-se na fé e na esperança" (cf. Rm 4, 18-19). A esperança é a virtude que nos impele a prosseguir e perseverar na vocação. Perseverar, pois, como peregrinos de esperança é a meta que prossegue para além do período do Ano Santo que hoje se encerra. O jubileu se encerra, a esperança não! Que nossas comunidades eclesiais se empenhem com coragem na evangelização e no cuidado dos pobres, dos jovens e das famílias.

 

O socorro aos pobres é o próprio Cristo que neles nos interpela, como recorda o papa Leão XIV. A evangelização dos jovens teve um momento exuberantemente marcante no Jubileu da Juventude, acontecido em Roma, numa demonstração da fé e da sede que os jovens têm da Palavra; e do seu desejo de pertencer à Igreja de Cristo e experimentar, também eles, a esperança divina, numa sociedade tão desafiadora. Às famílias, recordemos os conselhos de São Paulo, na segunda leitura: esposas, sede solícitas; maridos, amai vossas esposas; filhos, obedecei em tudo aos vossos pais; pais, não intimideis os vossos filhos para que não desanimem (Cl 3, 18-21).

 

A Solenidade da Sagrada Família é ocasião propícia para meditarmos sobre as nossas famílias, no contexto do Natal do Senhor, que estamos celebrando, e do Ano Santo que hoje se encerra.  A 1ª leitura, do livro do Eclesiástico, é uma reelaboração do 4º Mandamento da Lei de Deus (Ex 20, 12; Dt 5, 16; cf. Lv 19, 3). Neste trecho ouvimos, entre outras coisas, que “a caridade feita a teu pai não será esquecida, mas servirá para reparar os teus pecados” (vv. 15-16). Aqui se percebe a profundidade do amor aos pais no coração de Deus. Honrar e amar os pais e, por extensão, os nossos familiares, contribui para o perdão dos nossos pecados. Depois deste Ano Santo, no qual experimentamos a indulgência e a misericórdia de Deus, especialmente através dos sacramentos da Penitência e da Eucaristia, a Palavra de Deus nos mostra que o amor em família nos propicia o perdão que Deus nunca nega a seus filhos.

 

O Evangelho da missa de hoje relata a fuga da Sagrada Família para o Egito. Tais vicissitudes por que passam Jesus, Maria e José identificam a família de Nazaré aos mais diversos tipos de sofrimento pelos quais passam nossas famílias, particularmente as refugiadas da fome, das perseguições, das guerras e toda sorte de perigos e violações que as privam da dignidade, transformando-as em migrantes e desterradas. A Família de Nazaré não é diferente das nossas famílias; é sim modelo e inspiração. José, ao escutar a voz do anjo e conduzir a Sagrada Família para longe do perigo, torna-se, mais uma vez, um silencioso e eloquente exemplo de obediência e confiança.

 

Cito reflexão do Pe. Joãzinho, que diz: “Onde há confiança, Deus abre rotas seguras. A fé, que escuta e age, transforma ameaças em proteção; e história ferida em promessa de salvação” (evangelho do dia de hoje: Mt 2,13-15.19-23). E eu concluo que São José ensina resistir e recomeçar, prosseguir e perseverar. E fazer tudo isso com “os olhos fixos em Jesus”, certos que “a Cruz de Cristo permanece a âncora da salvação” (Papa Francisco, audiência geral, 21.09.2022).

 

Seja esta Solenidade da Sagrada Família um incentivo às Pastorais que tem como destinatárias as famílias: a Pastoral Familiar, o ECC, as Equipes de Nossa Senhora, as Famílias Novas, a Comissão de defesa da Vida e outras.

 

Por fim, é salutar recordar de Nossa Senhora como Mãe de Nossa Esperança. Ao convocar este “Ano Santo”, o Papa Francisco disse que ele seria “ocasião de experimentar a proximidade de Maria, a mais afetuosa das mães, que nunca abandona os seus filhos” (cf. Bula Spes non confundit). Tendo vivido esta proximidade maternal com a Virgem Maria durante o Ano Santo, especialmente através das devoções marianas e na celebração deste Tempo do Natal, pedimos à Mãe de Deus que nos confirme na fé no seu Divino Filho e interceda para que prossigamos como Testemunhas de Esperança! A família diocesana de Mogi das Cruzes seguirá tendo na Sagrada Família de Nazaré – Jesus, Maria e José - a inspiração para manter acesa a “chama viva da nossa esperança”.

 

Amém!

 

Dom Pedro Luiz Stringhini

Bispo diocesano

Mogi das Cruzes, 28 de dezembro de 2025

Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José